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Apps de encontro por interesse (não só romance) ganham tração entre jovens

Apps de encontro por interesse no Brasil

Juliana, 25, de Curitiba, marcou três encontros na última semana por um app que ela descreve como «Tinder de hobby, sem flerte obrigatório». Um foi para correr no Barigui, outro para montar um roteiro de RPG de mesa, o terceiro para estudar japonês num café da região central. Nenhum virou romance. Todos viraram contato recorrente.

O padrão se repete em outras cidades. A Jovira conversou com 28 usuários de apps de encontro por interesse — ferramentas que parecem surgir a cada semestre, muitas ainda pequenas — em São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre. A maioria relatou motivação principal: fazer amizade ou achar parceiro de atividade depois de mudar de cidade ou formar na faculdade.

Por que agora

Pesquisadores de sociabilidade digital apontam conjunção de fatores. Primeiro, fadiga com apps de romance que priorizam aparência e conversa rasa. Segundo, mudança de cidade para trabalho ou estudo, com dificuldade de criar rede do zero. Terceiro, normalização de marcar encontro com desconhecido para atividade específica — algo que a pandemia acelerou e que não desapareceu.

Conexões por interesse em comunidades urbanas

«Eu não queria mais swipe achando que todo mundo queria algo romântico», conta Marcos, 23, de Belo Horizonte, que usa app para achar parceiros de skate e fotografia de rua. «Quando o objetivo é claro, a conversa flui melhor.»

Como os apps se diferenciam

Os modelos variam. Alguns funcionam como agenda de eventos abertos: qualquer um cria encontro público por tema. Outros fazem match por interesses declarados e sugerem café ou caminhada. Há ainda os focados em projeto — «procuro coautor para podcast», «montar banda de covers» — com perfil mais parecido a mural de faculdade do que a rede social.

O encontro por interesse tira a pressão do romance e coloca a atividade no centro. Isso muda completamente a dinâmica — e o público que se sente à vontade.

Segurança e moderação

Usuários entrevistados citam segurança como critério decisivo. Preferem apps que exigem verificação básica, permitem denúncia rápida e recomendam encontro em lugar público. Em Curitiba, um grupo de usuárias criou checklist compartilhado no Instagram com dicas de primeiro encontro — sinal de que a comunidade se autorregula quando a plataforma ainda é pequena.

Há limitações. Apps menores têm pouca densidade de usuários fora das capitais. E a linha entre amizade e interesse romântico continua existindo — vários entrevistados admitiram que «se rolar química, tudo bem», mas não é a expectativa inicial.

O que observar

O crescimento desses apps não significa morte dos apps de romance — significa especialização. Para marcas e desenvolvedores, a lição é que jovens brasileiros buscam contexto compartilhado, não só foto bonita. Para quem estuda comportamento digital, vale acompanhar se o modelo escala além de nichos urbanos de classe média ou se permanece como solução de cidade grande para quem acabou de chegar.

Em Recife, universitários recém-chegados de interior usam app de hobby para montar rede nos primeiros meses de curso — período em que solidão é alta e festa de calouro nem sempre acolhe. Em Porto Alegre, grupo de corrida noturna mistura veteranos e iniciantes com regra de ritmo por nível, reduzindo intimidação de quem está começando.

Desenvolvedores ouvidos pela Jovira dizem que retenção depende menos de gamificação e mais de evento recorrente: encontro semanal no mesmo parque, mesa de RPG toda quarta, estudo de idioma no sábado de manhã. O app vira calendário social, não vitrine de perfil.

Ainda há barreiras de acesso: smartphone compatível, dados móveis, disposição para encontrar desconhecido. Mas dentro do nicho que adota, o movimento aponta para socialidade intencional — oposto ao scroll solitário que muitos relatam estar cansados de sustentar.

Para quem chega numa cidade nova sem rede familiar, esses apps funcionam como infraestrutura de amizade temporária — não substituem vínculo profundo, mas reduzem isolamento nas primeiras semanas. É uso pragmático, não moda passageira.

Atualizado em Jun 10, 2026 às 14h30 (horário de Brasília).

Retrato de Bruno Mendes

Autor

Bruno Mendes

Repórter · Apps e tecnologia

Comunicólogo pela UFRJ. Especialista em comportamento de plataformas e adoção de apps entre jovens no Sudeste e Nordeste.